Verônica Moreira: "a literatura de cordel começou na Idade Média, na Região de Provence, na França, foi para Portugal e dali veio para o Brasil. Podemos colocar que quem trouxe para nosso país foram os degredados, as pessoas que vieram nos navios, expulsos de Portugal, mal vistos e mal amados naquele país e nesse meio estão integrados judeus, muçulmanos e as pessoas que não eram muito gratas, muito bem vistas pela côrte. Esse pessoal trouxe esse costume de cantar as poesias. desde o começo da colonização, havia essa poesia cantada, das quais não se tem muito registro porque ela foi mal vista pela religiosidade católica - a Igreja Católica cometeu mais esse erro, ela já pediu perdão por alguns e precisa pedir por esse também - que colocou essa poesia como marginal. Na realidade era uma poesia comum, do dia a dia e que ainda hoje existe. Em Portugal nós encontramos poesias escritas ou feitas de improviso, que têm uma característica diferente da nossa, mas elas são o que a gente pode dizer, a raiz do que chegou aqui.
A respeito da poesia popular, assunto indagado pelo Miguel, foi dito pela Verônica que ela radicou-se mesmo no nordeste e você tem razão quando fala de Pernambuco, mas não só nosso Estado. Em todos os estados do Nordeste, do Maranhão à Bahia nós encontramos a poesia em todos eles. Para escrever meu livro, eu viajei mais de 600.000 km e nós encontramos essa poesia em todos os lugares, pessoas admirando poesia, editoras fazendo, então a gente está sempre encontrando essa poesia em todos os lugares.
O nome cordel é um nome perjorativo, mangador, aquela literatura que está pendurada na feira num cordel ou cordão, sendo considerada uma poesia que não tinha muito valor. Essa literatura sempre existiu, não encontrou espaço na mídia divulgadora da cultura de massa (jornal, televisão), mas nós sabemos que ela está ali viva, cotidianamente com gente escrevendo, acontecendo, na internet em diversos sites como o da Unicordel e ela está conseguindo se impor com mais força e ao mesmo tempo que ela se impõe pela qualidade do trabalho, também o faz pelos assuntos que são atuais, conseguindo assim um espaço mais forte."
Miguel abriu a palavra para que se falasse sobre a poesia de cordel, a poesia marginal e sobre os espaços onde estão acontecendo os movimentos que atraem os poetas para divulgar essa forma de arte do cotidiano.

Allan Sales - " A Unicordel foi criada em abril de 2005, pelo poeta José Honório que, além de juntar as pessoas que escrevem e publicam cordel, provoca o resgate da oralidade da literatura de cordel porque esse tipo de literatura não só era exibido nas feiras, como os poetas declamavam para seu público. Eu venho de uma tradição de palco, já que eu trabalho em teatro onde nós montamos um espetáculo poético musical, trazendo o cordel para a dimensão de um espetáculo. Tivemos a ousadia de levar o cordel para barzinhos, instalamos um ponto de cultura à revelia do poder público no Mercado da Madalena, onde as pessoas além de ouvirem música popular de toda qualidade, da mais sofisticada a mais simples, nós estamos lá. O Filipe eu conheci no Mercado da Madalena, o Adiel Luna, conheci nos bares da vida, o Altair das Quartas Literárias no Centro Luiz Freire. Então o Recife está muito bem servido desse tipo de expressão."

O Altair Leal reforçou as informações do Allan, sobre os locais de divulgação da literatura de cordel "no Mercado da Madalena, nas Quartas Literárias, no Centro Luiz Freire, na Universidade de Pernambuco, Biblioteca de Casa Amarela, Biblioteca de Afogados, o Celina de Holanda, a Assembleia Legislativa, entre outros. A poesia ferve na capital pernambucana. Poeta é o que mais tem. Se você balançar uma árvore no centro do Recife, vai cair mais poeta do que fruto. Nós somos muito bem servidos, temos muitos poetas de qualidade, muita gente que está chegando, joias brutas que estão sendo lapidados. Então Recife está muito bem servido de poetas e de espaços. Então quem for poeta e quizer recitar, deixe de ser poeta de gaveta e passe a ser poeta da oratória mesmo, porque a gente tem muita coisa para escutar e muita coisa para escrever."
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Filipe Junior - "Eu acho interessante que, particularmente em Pernambuco, nunca viveu um momento tão forte como a poesia popular. O Altair, eu e vários outros poetas, trabalhamos com oficinas e nós sentimos a escola abrindo as portas das salas de aula para repassar para os alunos o conteúdo do cordel. A formalidade do cordel, a métrica, a rima, o estilo e por isso eu acredito que na história de Pernambuco nunca se viu um momento tão especial da poesia popular e em particular o cordel."

Altair Leal - "E também quebrar esse gelo de dizer que literatura de cordel é coisa do interior. A Literatura de cordel está nas Universidades, está no centro do Recife, porque antigamente só se falava em poesia marginal, (e eu também escrevo poesia marginal) mas a importância da Unicordel é que ela fez com que a literatura popular disputasse com a poesia alternativa."

Miguel - Eu estou com um livro do Felipe Junior, "O Relicário" e eu gostaria que voce falasse sobre seu livro a também recitasse uma poesia.
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Felipe Junior - O Relicário, eu lancei no Mercado da Madalena, entre tantos poetas que participaram do evento, como Joselito, Chico Pedrosa, Allan Sales, entre outros. Relicário é uma poesia nascida na minha cidade, São José do Egito e vindo prá cá prá Recife, tendo o gosto dessa sertanidade toda. O título Relicário vem das minhas poesias, que são pedras preciosas, joias raras, e nada mais justo do que colocar meu baú de relíquias, o meu Relicário, fazendo esse parâmetro com a poesia popular e a poesia urbana, colocando a poesia do sertão dentro da cidade. O livro pode ser encontrado no Box Sertanejo no Mercado da Madalena, onde a gente se reune todo sábado a partir de meio dia, improvisando poesia, declamando poesia. Tem a poesia chamada "Voltando prá casa" que eu fiz, imaginando um pouco essa cena do sertanejo que deixa a sua terra e vai em busca dos seus sonhos no sul do país, eu imaginava a cenda de um nordestino escrevendo passando pelas dificuldades lá no sul, escrevendo a carta, buscando alguns trocados, escrevendo com toda alegria prá mãe dele, escrevendo um bilhetinho dizendo:Mãe, eu tô voltando prá casa! e daí foi que surgiu a poesia Voltando prá casa

Seu moço, sou peregrino
viajante e estradeiro
não trago nessa bagagem
nem comida e nem dinheiro.
Abandonei o sertão
pois eu vi a precisão
de deixar o meu roçado
O dinheiro que se ganha
não é o que o homem sonha
prá viver despreocupado!
Seu moço peço atenção,
escute bem meu dizer
sou homem de braço forte
mas que não sabe nem ler
nunca eu entrei numa escola
confesso, pedi esmola
quando não tinha comida.
Deus que é nosso pai mais nobre,
talvez não ligue pro pobre
do geito que leva a vida.
Meu papaizinho querido,
morreu quando eu era novo
minha mãe velha e cansada,
lava roupa para o povo.
Perdi no tempo a infancia,
não dava tanta importância
queria ajudar meus pais.
Trabalhava bem cedinho,
prá arrumar um dinheirinho
e mamãe comprar o gás.
Ah seu moço, essa é a vida,
tão feliz, mas tão ingrata!
Queria voltar prá casa,
caçar lá dentro da mata.
Aqui eu só sinto frio
qualquer lugar é vazio
durmo tarde e acordo cedo
quando saio a trabalhar,
eu num sei se vou voltar
vivo sempre com esse medo!
Aqui não sinto sabor
do feijão que mamãe faz
aqui não tenho alegria
amor, carinho nem paz
muito menos amizade.
É esta a pura verdade
deste meu novo endereço.
Moço, quero voltar
lá pro Sertão e ficar
no lugar que eu conheço.
Sinto saudades de mãe,
não vou mais abandoná-la
estou até quase vendo
ela vindo lá da sala
e me abraçando no terreiro
e eu dando quatroze xêro
na cabeça bem branquinha
e ela me contemplando
dizendo quase chorando
sabia que você vinha.
Por isso faço viagem
com os trocados que juntei,
vou-me embora pro Sertão
lugar onde eu me criei!
Vou matar minha saudade
viver na simplicidade
com minha mãe e meu filho
morar na minha palhoça
e plantar minha roça
prá comer feijão e milho.
Agradeço sua atenção
e deixo o meu recado:
Cuide bem da sua mãe
nunca deixe ela de lado!
Hoje eu digo:
mamãezinha estou voltando!
pode ir se preparando
deste chão não saio mais,
pois mãe eu só tenho aquela
e quando Deus leva ela
não substitui jamais!
POESIA RECITADA PELO ALTAIR LEAL

Menino eu sou um matuto
que não sei nada de língua
essas coisas de inglês, francês, espanhol, alemão
ige, chega me dá uma íngua!
Nem português direito eu sei falar!
E as gírias, que costumam inventar?
tem cada coisa esquisita prá se ver
como os vícios de linguagem martelado
repetição de tres minuto mal falado
fica até difícil de entender!
Uma nova mania que eu acho uma tristeza!
quando alguém pergunta algo,
o outro diz: com certeza!
Do meu tempo de criança,
trago ainda na lembrança
o oi, oxente, vige, avia,
isto sim, que é português!
Não a língua de vocês, que me dá é agonia!
Já não se dá um bom dia, já não se diz obrigado,
fala-se e aí? então? como é que é meu irmão? irado?
isso é modo de falar!
Eu quero é me comunicar de uma forma decente
quero que o interlocutor,
me entenda quando eu digo: por favor!
aí sim, é linguagem de gente!
onde está o olá! tudo bem?
a senhora vai bem? obrigado
Agora mudou: diga aí doido! vamo ali resolver uma parada!
que massa meu irmão!
se ligue!
preste atenção! que danado de palavreado!
eu conheço é pru li, pru qui, pru lá, pru mode,
im riba, aculá
Esse tal de tá ligado!
quando voce se zanga é: pô meu!
se passa mulé boa é: que pité! libera aí meu irmão!
na moral! vá por mim! a mina é filé!
No meu tempo de menino, o fraseado era mais fino:
o senhor, a senhora, bença mãe, bença pai,
agora mudou: vou nessa coroa! e aí velho, numa boa?
sujou meu irmão! lavra e sai!
Esse tal de inglês que vocês às vezes usam,
eu mesmo nem me meto, língua e beiço travam!
Recusa...
Hot Dog é Cachorro Quente
brother, parece que é irmão... parente...
tem bleque, uraite, ies, no, ai love iu, te ende,
quem diabo compreende?
tão chamando um tal de titcher professor,
e eu vou tá quebrando cabeça cada vez que eu for falar
quem quizer me entender
preste atenção é só me escutar
falar linguagem do povo
sem precisar repetir de novo
falo direto, com base
Interessante são vocês!
Mal aprendem a falar português,
e já ficam inventando frases?
Deixa eu cá com meu sotaque
de caboclo nordestino
mostrando um português curtinho
pois é esse o meu destino.
Mas querer falar inglês, usar termos em francês,
bonjur, merci, aurrevoar,
usar vícios de linguagem, essas gírias, essas bobagens,
ta dana home, vai te lascar!
Allan Sales - "A Verônica falou uma coisa interessante: que a poesia de cordel desde que ele surgiu se voce for analisar toda a história do cordel, ele acompanha todos os fatos históricos, políticos, desastres naturais, tudo que aconteceu com a humanidade. Recentemente, um cidadão chamado Dom Cappio, estava fazendo uma greve de fome aí, muito sensibilizado com a transposição do São Francisco e eu escrevi isso aqui prá ele, que é um mote sugerido pelo poeta Joselito Nunes, que diz assim:

Meu sertão sofre com sede,
mas tem rio caudaloso
o bispo religioso
falando na Globo ao rei
quer ser como uma parede
barrando essa redenção
A água da salvação
do sertanejo um esteio
um bispo de rabo cheio
não quer água no sertão!
Esse bispo passa bem
tem casa e comida boa
mas meu sertão fica à toa
barrar isso não convém.
A transposição assim vem
trazer sim irrigação
do rio a preservação
faremos sem aperreio
um bispo de rabo cheio
não quer água no sertão!
O sertão da Paraíba
Pernambuco e Ceará
Um rio grande será
livrando da pindaiba
o sertão que deu furiba
No Piauí precisão,
fome, sede e exclusão
quadro social tão feio
um bispo de rabo cheio
não quer água no sertão!
Ó meu bispo, deixe disto!
o senhor apareceu,
seu marketing cresceu
volte para seu chouriço
engordar o seu toitiço
com uma farta refeição
vinho bom, sardinha e pão
e um bom queijo no recheio
bispo de rabo cheio
não quer água no sertão!

Adiel Luna: O BEIJO DE CATARINA
Nem mesmo toda doçura,
que há nos frutos e flores
nem os sublimes sabores
que a natureza mistura
O néctar da rapadura
o frescor da cajuina
o sabor da vitamina
e as proteínas do queijo,
não tem o gosto do beijo
da boca da Catarina
O som da manga espada
quando é tirada no pé
sentir cheirar o café
antes da mesa botada
um copo de umbuzada
às seis horas da matina
vendo a manhã matutina
o sol nascendo e festejo
não tem o gosto do beijo
da boca de Catarina!
Sentir o capim molhado
escorregar entre os dedos
ver o lodo nos lajedos
deixando o chão enfeitado
entrar no mato fechado
caçando de lazarina
ouvir o galo campina
tocando o seu realejo
tem o gosto do beijo
da boca de Catarina!
Deitar numa rede armada
debaixo de um sombreiro
subir em um cajueiro
descer de boca melada
comer milho e pamonhada
brincar em festa junina
no claro da lamparina
tudo quanto toco e vejo
não tem o gosto do beijo
da boca de Catarina
Os meus anos de criança
vividos intensamente,
meus tempos de adolescente
ainda guardo lembrança
o gozo de uma herança
um namoro na surdina
um toque de concertina
num forró de vilarejo
não tem o gosto do beijo
da boca de Catarina!
Os versos do romancista
que a namorados comove
os doces que se dissolvem
na língua da normalista
ver gado correr na pista
na vaquejada em Carpina
e os quadris da dançarina
excitando meus desejos
não tem o gosto do beijo
da boca de Catarina!
Foi convidado para participar do debate, o repentista Antonio Lisboa, para um contraponto no assunto do dia, para explicar a diferença entre cordel e repente.
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Antonio Lisboa - "A cantoria e o cordel estão de certa forma aproximados na questão das estruturas que usamos praticamente modalidades que são comuns tanto no cordel como na cantoria. Na cantoria nós usamos a sextilha e o cordel também usa a sextilha que é uma modalidade de seis versos e de sete sílabas cada um verso com a distribuição de rimas na segunda, na quarta e na sexta, como também nós usamos as décimas, as estrofes de sete sílabas e até as oitavas. Essas modalidades são comuns à cantoria e ao cordel. Pode também usar no cordel e na cantoria, outras modalidades como no caso da décima também. Não são comuns no cordel, as décimas, são mais comuns as estrofes de sete sílabas e de seis sílabas, mas se usam também várias modalidades. A cantoria tem uma quantidade bem maior de modalidades com estrofes bem definidas.
Outra diferença básica é ser a cantoria toda cantada de improviso e o cordel todo escrito e o cordel todo lido e a cantoria toda cantada acompanhada pela viola e o cordel não precisa necessáriamente de instrumento. Evidente que se pode musicar um cordel, pode teatralizar um cordel, mas não há necessidade porque o cordel é para ser lido ou para ser cantado e a cantoria somente improvisado. Essa é bàsicamente a diferença. Mas a gente tem vinculação da cantoria com o cordel quando voce verifica ao longo da história da cantoria que o cordel teve uma passagem muito importante pela história da cantoria com a questão das pelejas de cantadores famosos que transformaram algumas cantorias em cordel. Por exemplo, um cantador se juntou com outro e escreveu a pela do Cego Aderaldo e Zé Pretinho, que é escrita por um cunhado de Zé Pretinho e não tem nenhuma estrofe do Cego Aderaldo naquela peleja e o Zé Pretinho nunca existiu. Era um cantador fictício, que o poeta criou para a pela de Aderaldo. O romance ou o cordel ou folheto, como queiram chamar, ele também foi cantado pelos cantadores na cantoria e tiveram toda essa aproximação. Por isso que hoje ainda os pesquisadores fazem essa confusão de chamar cordel de cantoria e cordelista de repentista e repentista de cordelista e as pessoas terminan perdidas sem saber diretamente qual a verdade. Mas se voce for ver direitinho, tanto a cantoria como o cordel eles têm regras bem definidas que dá para a pessoa notar que há uma diferença. Cantoria e cordel são aproximados, mas não são a mesma coisa.
Como leigo, Miguel perguntou se o repentista e o cordelista eram diferentes.
Antonio Lisboa - "Não necessàriamente. O cordelista pode ser repentista mas não é necessário porque o cordel ele vai escrever e não precisa de improvisar. Ele não tem que ter a versatilidade que tem o repentista e a prática de improvisar. O repentista, da mesma forma que ele escreve e canta, ele pode também escrever cordel porque ele improvisa, é mais rápido e no cordel tem mais tempo para pensar, então é mais fácil o repentista ser cordelista, do que o cordelista ser repentista, mas eu até acho que qualquer cordelista na hora que começar a praticar ele pode se tornar repentista, com o tempo, com a prática ele vai ser repentista. Se quizer viver a vida toda escrevendo, ele pode ser um cordelista ou poeta de bancada, como é chamado."

Miguel pediu à pesquisadora Verônica Moreira, que falasse sobre o seu livro O Canto da Poesia, que tem uma proposta educativa.
Verônica Moreira - O Canto da Poesia tem toda uma linguagem didática, facilmente adaptada para escolas e todo tipo de instituição educacional, inclusive apresentando toda essa diferenciação que o Antonio Lisboa apresentou, sobre as siferenças entre o poeta cordelista e o poeta repentista. O livro também traz biografia dos primeiros cordelistas e dos primeiros cantadores, que eram repentistas e das primeiras mulheres repentistas, registro de diversas modalidades de cantorias e sobre outros tipos de poesia popular como o côco de embolada. O livro também está à venda no Mercado da Madalena, e na Editôra Bagaço, em Recife.


O convidado especial do programa foi o poeta Arnaldo Ferreira, pai do poeta Adiel Luna, que também recitou uma poesia para encerrar com brilhantismo o Programa Liberdade de Expressão
NUNCA VI HOMEM NO MUNDO PRÁ SER MOLE COMO EU
É muito certo um ditado
que disse um amigo meu
Nunca vi homem no mundo
prá ser mole como eu
No começo de janeiro
preparei uma palhoça
fui trabalhar numa roça
por moleza não choveu
o pezinho que nasceu
foi na beira de um riacho
e no primeiro cacho
a lagarta apareceu
É muito certo o ditado
que disse um amigo meu
nunca vi homem no mundo
prá ser mole como eu
Eu arranjei uma noiva
tirei todo o documento
pedi ela em casamento
o pai com gosto me deu
quando o padre nos benzeu
e eu pensave em ser feliz,
na saída da matriz
minha noiva faleceu
É muito certo o ditado
que disse um amigo meu
nunca vi homem no mundo
prá ser mole como eu!
Casei-me a segunda vez
com uma moça já idosa
essa muito caprichosa
com os troços que recebeu
Depois desapareceu
prás bandas do Ceará
vive com outro prá lá
quem atolou-se fui eu.
É muito certo o ditado
que disse um amigo meu
nunca vi homem no mundo
prá ser mole como eu
Inventei uma matança
pensando em dar resultado
comprei logo um boi fiado
a um conhecido meu
quando o turino entendeu
que ia entrar no machado
entrou no mato fechado
e nunca mais apareceu
É muito certo o ditado
que disse um amigo meu
Não existe homem no mundo
prá ser mole como eu
Mãe me deu uma galinha
e acompanhava um pintinho
o bichinho empenadinho
com tres meses ele cresceu
um menino apareceu
por detrás da capoeira
e matou com a baladeira
o pintinho que mãe me deu
É muito certo um ditado
que disse um amigo meu
Não existe homem no mundo
prá ser mole como eu
Pai me deu uma cabrinha
acompanhou um cabritinho
o bichinho tava grandinho
com tres meses ele morreu
o fraco couro que deu
espichei no pé do morro
veio um diabo de um cachorro
o couro magro comeu
É muito certo o ditado
que disse um amigo meu
nunca vi homem no mundo
prá ser mole como que eu
LITERATURA DE CORDEL - ANOTAÇÕES EXTRAÍDAS DO WIKIPEDIA
A literatura de cordel é um tipo de poesia popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome. São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados ou não de viola. Pelo fato de funcionarem como divulgadoras da arte do cotidiano, das tradições populares e dos autores locais (lembre-se a vitalidade deste género ainda no nordeste do Brasil), a literatura de cordel é de inestimável importância na manutenção das identidades locais e das tradições literárias regionais, contribuindo para a manutenção do folclore nacional; Pelo fato de poderem ser lidas em sessões públicas e de atingirem um número elevado de exemplares distribuídos, ajudam na disseminação de hábitos de leitura e lutam contra o analfabetismo.
(Literatura de cordel Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. )Histórico
A história da literatura de cordel começa com o romanceiro luso-espanhol da Idade Média e do Renascimento. O nome cordel está ligado à forma de comercialização desses folhetos em Portugal, onde são pendurados em cordões, lá chamados de cordéis. Inicialmente, eles também contém peças de teatro, como as de autoria de Gil Vicente (1465-1536).Foram os portugueses que trouxeram o cordel para o Brasil, na segunda metade do século XIX. Hoje muitos folhetos ficam expostos horizontalmente em balcões ou tabuleiros. Embora seja pouco freqüente, também há criações de cordel em prosa. Esse tipo de literatura popular existe também na Sicilia (Itália), na Espanha, no México e em Portugal. Na Espanha é chamada de pliego de cordel ou pliegos sueltos (folhas soltas).E esse ano de 2007 comemora-se os 100 anos da existencia da literatura de Cordel
Os temas incluem fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas e temas religiosos. As façanhas do cangaceiro Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de cordéis de maior tiragem. É comum os autores criarem seus versos improvisadamente diante de um acontecimento ou uma pessoa que queiram homenagear. As formas variaram pouco ao longo do tempo.
No Brasil, a literatura de cordel é produção típica do Nordeste, sobretudo nos estados de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará. Costuma ser vendida em mercados e feiras pelos próprios autores. Em outros Estados, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, é encontrada em feiras de produtos nordestinos. Nos grandes centros, já há impressões mais sofisticadas. Mas de modo geral a produção está em declínio.
Os poetas Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e João Martins de Athayde (1880-1959) estão entre os principais autores.
Pelo fato de ser literatura distribuída nas ruas, feiras e botequins, pelo tipo de literatura a que se dedica (essencialmente poesia popular, mas também romances sentimentais) e pelo tipo de linguagem em que circula (bastante simples, com os traços da fala coloquial, e próxima do modo de falar do povo do sertão), a literatura de cordel foi, durante muito tempo, pouco apreciada. Todavia, este tipo de literatura apresenta vários aspectos interessantes e dignos de destaque:
As suas gravuras, chamadas xilogravuras, representam um importante espólio do imaginário popular;
A tipologia de assuntos que cobrem, crítica social e política e textos de opinião, elevam a literatura de cordel ao estandarte de obras de teor didáctico e educativo.
Poética
Quadra - Estrofe de quatro versos.
A quadra é mais usada com sete sílabas. Obrigatoriamente tem que haver rima em dois versos (linhas). Cada poeta tem seu estilo. Um usa rimar a segunda com a quarta. Exemplo:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá (2)
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá (4).
Outro prefere rimar todas as linhas, alternando ou saltando. Pode ser a primeira com a terceira e a segunda com a quarta, ou a primeira com a quarta e a segunda com a terceira. Vejamos estes exemplos de Zé da Luz: (ABAB ou ABBA)
E nesta constante lida
Na luta de vida e morte
O sertão é a própria vida
Do sertanejo do Norte
Três muié, três irimã,
Três cachorra da mulesta
Eu vi nun dia de festa
No lugar Puxinanã.
Sextilha - Estrofe ou estância de seis versos.
Estrofe de seis versos de sete sílabas, com o segundo, o quarto e o sexto rimados; verso de seis pés, colcheia, repente. Estilo muito usado nas cantorias, onde os cantadores fazem alusão a qualquer tema ou evento e usando o ritmo de baião. Exemplo:
Quem inventou esse "S"
Com que se escreve sauDAde 1
Foi o mesmo que inventou
O "F" da falsiDAde 2
E o mesmo que fez e "I"
Da minha infeliciDAde 3
Septilha - Estrofe (rara) de sete versos; setena (de sete em sete). Estilo muito usado por Zé Limeira, o Poeta do Absurdo.
Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraiba falada
Cantando nas escrituras
Saudando o pai da coaiada
A lua branca alumia
Jesus, Jose e Maria
Três anjos na farinhada.
Napoleão era um
Bom capitão de navio
Sofria de tosse braba
No tempo que era sadio,
Foi poeta e demagogo
Numa coivara de fogo
Morreu tremendo de frio.
Na setilha ele usa o estilo de rimar a segunda linha com a quarta e a sétima e a quinta com a sexta, deixando livres a primeira e a terceira.
Oitava - Estrofe ou estância (grupo de versos que apresentam, comumente, sentido completo) de oito versos: oito-pés-em-quadrão. Oitavas-a-quadrão.
Como o nome já sugere, a oitava é composta de oito versos, ou oito linhas ou duas quadras, com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta usa rimar a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima. Todas as estrofes são encerradas com o verso: Nos oito pés a quadrão.
Vejamos versos de uma contaria entre José Gonçalves e Zé Limeira: - (AAABBCCB)
Gonçalves:
Eu canto com Zé Limeira
Rei dos vates do Teixeira
Nesta noite prazenteira
Da lua sob o clarão
Sentindo no coração
A alegria deste canto *
Por isso é que eu canto tanto *
NOS OITO PÉS A QUADRÃO
Limeira:
Eu sou Zé Limeira e tanto
Cantando por todo canto
Frei Damião já é santo
Dizendo a santa missão
Espinhaço e gangão
Batata de fim de rama *
Remédio de velho é cama *
NOS OITO PÉS A QUADRÃO.
Quadrão - Oitava na poesia popular, cantada, na qual os três primeiros versos rimam entre si, o quarto com o oitavo, e o quinto, o sexto e o sétimo também entre si.
Décima - Estrofe de dez versos de sete sílabas, cujo esquema rimático é, mais comumente, ABBAACCDDC, empregada sobretudo na glosa dos motes, conquanto se use igualmente nas pelejas e, com menos freqüência, no corpo dos romances.
Geralmente nas pelejas é dado um mote para que os violeiros se desdobrem sobre o mesmo.
Vejamos e exemplo com José Alves Sobrinho e Zé Limeira:
Mote:
VOCÊ HOJE ME PAGA O QUE TEM FEITO
COM OS POETAS MAIS FRACOS DO QUE EU.
Sobrinho:
Vou lhe avisar agora Zé Limeira B
Vou lhe amarrar agora a mão e o pé >B
E lhe atirar naquela capoeira C
Você hoje se esquece que nasceu >C
E se lembra que eu sou bom e perfeito >D
Você hoje me paga o que tem feito >D
Com os poetas mais fracos do que eu. >C
Zé Limeira:
Mais de trinta da sua qualistria
Não me faz eu correr nem ter sobrosso
Eu agarro a tacaca no pescoço
E carrego pra minha freguesia
Viva João, viva Zé, viva Maria
Viva a lua que o rato não lambeu
Viva o rato que a lua não roeu
Zé Limeira só canta desse jeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.
Galope à beira-mar - Estrofe de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica, e que finda com o verso "cantando galope na beira do mar" ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra "mar".
Às vezes, porém, o primeiro, o segundo, o quinto e o sexto versos da estrofe são heptassílabos, e o refrão é "meu galope à beira-mar". É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas.
Sobrinho:
Provo que eu sou navegador romântico
Deixando o sertão para ir ao mirífico
Mar que tanto adoro e que é o Pacífico
Entrando depois pelas águas do Atlântico
E nesse passeio de rumo oceânico
Eu quero nos mares viver e sonhar
Bonitas sereias desejo pescar
Trazê-las na mão pra Raimundo Rolim
Pra mim e pra ele, pra ele e pra mim
Cantando galope na beira do mar.
Limeira:
Eu sou Zé Limeira, caboclo do mato
Capando carneiro no cerco do bode
Não gosto de feme que vai no pagode
O gato fareja no rastro do rato
Carcaça de besta, suvaco de pato
Jumento, raposa, cancão e preá
Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará
Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão
Dom Pedro Segundo de sela e gibão
Cantando galope na beira do mar.
Martelo
Estrofe composta de decassílabos, muito usada nos versos heróicos ou mais satíricos, nos desafios. Os martelos mais empregados são o gabinete e o agalopado.
Martelo agalopado - Estrofe de dez versos decassílabos, de toada violenta, improvisada pelos cantadores sertanejos nos seus desafios.
Martelo de seis pés, galope - Estrofe de seis versos decassilábicos. Também se diz apenas agalopado.
Redondilha
Antigamente, quadra de versos de sete sílabas, na qual rimava o primeiro com o quarto e o segundo com o terceiro, seguindo o esquema abba.
Hoje, verso de cinco ou de sete sílabas, respectivamente redondilha menor e redondilha maior.
Carretilha
Literatura popular brasileira - Décima de redondilhas menores rimadas na mesma disposição da décima clássica; miudinha, parcela, parcela-de-dez.
Métrica e Rima
Métrica: Arte que ensina os elementos necessários à feitura de versos medidos. Sistema de versificação particular a um poeta. Contagem das sílabas de um verso. Verso é a linguagem medida. Para medir devemos ajuntar as palavras em número prefixado de pés. Chama-se pé uma sílaba métrica. O verso português pode ter de duas a doze sílabas. Os mais comuns são os de seis, sete, oito, dez e doze pés. Como o verso mais comum, mais espontâneo é o de sete pés, comecemos nele a contagem métrica. Exemplo:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Eis como se contam as sílabas:Mi nha ter ra tem pal mei
Não contamos a sílaba final "ras" porque o verso acaba no último acento tônico. O verso a quem sobra uma sílaba final chama-se grave. Aquele a quem sobram duas sílabas finais chama-se esdrúxulo. O terminado por palavra oxítona chama-se agudo, como o segundo e o quarto do exemplo supra. Eis como se decompõe o segundo verso:On de can ta o sa bi áNesse verso "ta o" se lêem como t'o formando um pé, pela figura sinalefa (fusão) . Sabiá, modernamente, se deve contar dissílabo, porque biá, em duas silabas, forma hiato. Em geral devemos sempre evitar o hiato, quer intraverbal, quer interverbal. Os autores antigos e os modernos pouco escrupulosos toleram muitos hiatos.
Sinalefa: Figura pela qual se reúnem duas sílabas em uma só, por elisão, crase ou sinérese.
Sinérese: Contração de duas sílabas em uma só, mas sem alteração de letras nem de sons, como, p. ex., em reu-nir, pie-da-de, em vez de re-u-nir, pi-e-da-de.
As aves que a qui gor jei Não gor jei am co mo lá
No caso o verso é um heptassílabo, porque só contamos sete sílabas. Se colocarmos uma sílaba a mais ou a menos em qualquer dos versos, fica dissonante e perde a beleza e harmonia.Vale lembrar que quando a palavra seguinte inicia com vogal, dependendo do caso, pode haver a junção da sílaba da primeira com a segunda, como se faz na língua francesa. Exemplo:Para verificar a quantidade de silabas podemos contar nos dedos.
Vejamos neste trechinho de Patativa do Assaré:
Nes ta noi te pas sa gei ra1 2 3 4 5 6 7
Há coi sa que mui to pas ma1 2 3 4 5 6 7
Um mote:Vou fa zer se re na ta na cal ça da1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Da me ni na que a mei na mi nha vi da1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Rima
Rimas consoantes: As que se conformam inteiramente no som desde a vogal ou ditongo do acento tônico até a última letra ou fonema. Exemplo: fecundo e mundo; amigo e contigo; doce e fosse; pálido e válido; moita e afoita.
Rimas toantes: Aquelas em que só há identidade de sons nas vogais, a começar das vogais ou ditongos que levam o acento tônico, ou, algumas vezes, só nas vogais ou ditongos da sílaba tônica. Exemplo: fuso e veludo; cálida e lágrima; "Sem propósito de sonho / nem de alvoradas seguintes, / esquece teus olhos tontos / e teu coração tão triste." Cecília Meireles, Obra Poética, p. 516).
No caso da literatura de cordel nordestina, faz parte da tradição do gênero o uso de rimas consoantes. Se um folheto de cordel usa rimas toantes, o conhecedor de cordel pensa logo que o autor daquele folheto desconhece a existência destas regras. Um cordel escrito assim pode até ser um grande poema, mas não se pode dizer que se trata de 'um cordel autêntico'.